cover
Tocando Agora:

Entenda como funciona o centro tecnológico que faz testes para o pré-sal brasileiro em uma cidade sem mar

Centro de R$ 300 milhões em MG testa tecnologias que serão usadas para o pré-sal A mais de 400 quilômetros do litoral, em uma cidade cercada por montanhas n...

Entenda como funciona o centro tecnológico que faz testes para o pré-sal brasileiro em uma cidade sem mar
Entenda como funciona o centro tecnológico que faz testes para o pré-sal brasileiro em uma cidade sem mar (Foto: Reprodução)

Centro de R$ 300 milhões em MG testa tecnologias que serão usadas para o pré-sal A mais de 400 quilômetros do litoral, em uma cidade cercada por montanhas no Sul de Minas, está o Centro Tecnológico para o Pré-sal Brasileiro (CTPB) — um dos projetos mais estratégicos para o futuro da exploração de petróleo, instalado na área de expansão da Universidade Federal de Itajubá (Unifei). 📲 Siga a página do g1 Sul de Minas no Instagram Com um investimento de R$ 300 milhões, o CTPB foi criado para enfrentar um dos maiores desafios da indústria petroleira: testar equipamentos em condições praticamente idênticas às encontradas no fundo do mar, antes que eles sejam levados para operar a milhares de metros de profundidade — onde uma falha pode significar prejuízos financeiros e interrupção da produção. 🛢️ O que é o pré-sal? É uma camada de rochas localizada abaixo de uma espessa camada de sal no fundo do oceano. Os reservatórios ficam a milhares de metros de profundidade. As condições extremas exigem equipamentos específicos para a exploração. Instalações do Centro Tecnológico para o Pré-sal Brasileiro (CTPB), na Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI) Ascom UNIFEI Segundo a Petrobras, esta é a primeira instalação do mundo projetada especificamente para reproduzir as características dos campos brasileiros, que possuem elevada concentração de dióxido de carbono (CO₂). A expectativa é reduzir riscos técnicos, acelerar o desenvolvimento de novas tecnologias e diminuir custos antes da instalação dos equipamentos. Ainda assim, a consolidação do centro pode depender de fatores que vão desde a continuidade dos investimentos até a transformação das pesquisas em aplicações práticas. LEIA TAMBÉM: Unifei passa a ter laboratório dedicado a estudar exploração de petróleo Universidade fecha parceria para construção de centro tecnológico para o pré-sal em Itajubá O que acontece dentro do centro? O Centro Tecnológico para o Pré-sal Brasileiro (CTPB) é uma planta de processo em escala semi-industrial. Apesar do nome, não produz petróleo nem realiza perfurações. Sua função é servir como uma espécie de "campo de provas" para equipamentos que, no futuro, poderão operar em plataformas instaladas no oceano. A estrutura permite reproduzir o ambiente encontrado no pré-sal utilizando petróleo, água e gases reais, submetidos às mesmas condições de pressão e temperatura existentes nos reservatórios marítimos. "O objetivo principal dessa planta é simular, da forma mais fiel possível, a condição de separação do petróleo proveniente do pré-sal brasileiro. Aqui conseguimos replicar exatamente como esse fluido sai do poço e testar equipamentos para encontrar a melhor eficiência nessa separação", explica o gerente de instalações e manutenções do CTPB, Sérgio Garcia. Instalações do Centro Tecnológico para o Pré-sal Brasileiro (CTPB), na Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI) Ascom UNIFEI Conforme o coordenador do centro tecnológico, o professor Marco Aurélio de Souza, o que diferencia um laboratório de uma operação em campo é a possibilidade de levar um equipamento ao limite. "No laboratório conseguimos descobrir exatamente até onde um equipamento suporta operar. Fazer isso em uma plataforma seria inviável porque envolveria riscos e interromperia a produção", afirma. É justamente essa possibilidade de testar em ambiente controlado que reduz riscos antes da instalação no mar. "Imagine levar um equipamento a 250 quilômetros da costa, instalá-lo a dois mil metros de profundidade e dar errado. O simples fato de já saber que ele vai funcionar reduz muito o risco. E risco, para nós, significa custo", resume a diretora de Engenharia, Tecnologia e Inovação da Petrobras, Renata Baruzzi. Sala de controle do Centro Tecnológico para o Pré-sal Brasileiro (CTPB), em Itajubá (MG), onde operadores monitoram e comandam remotamente os testes da planta Paloma Simonetti/g1 Ao g1, o professor Marcelo Castro, pesquisador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), analisa que o início das operações do CTPB representa um avanço importante para a infraestrutura de pesquisa aplicada em petróleo e gás no Brasil. Ele comenta que instalações em escala semi-industrial são muito utilizadas em vários lugares do mundo e permitem reduzir a distância entre a pesquisa de laboratório e a aplicação em campo. "O retorno desses investimentos normalmente não é imediato nem deve ser medido apenas em termos financeiros diretos. Espera-se a formação de competências nacionais, a redução da dependência tecnológica externa, o fortalecimento da cadeia de fornecedores e ganhos de produtividade e segurança operacional ao longo de um horizonte de médio e longo prazo", explica. 🌡️ Os testes usam petróleo, água e gases reais. 🌊 A planta reproduz pressão e temperatura semelhantes às encontradas no fundo do mar. 🚢 Equipamentos são testados antes de serem instalados em plataformas a milhares de metros de profundidade. 💸 Cada teste aprovado reduz o risco de prejuízos milionários em operações. Petrobras inaugura centro de pesquisa para explorar pré-sal em Itajubá Primeira missão O primeiro grande projeto que utilizará a estrutura será o HISEP (Sistema de Separação Submarina de Alta Pressão), tecnologia desenvolvida pela Petrobras para mudar a forma como parte do petróleo é processada no pré-sal. Hoje, óleo, água e gases chegam juntos até a plataforma, onde ocorre a separação. A proposta do HISEP é antecipar parte desse processo para o próprio fundo do mar. Com isso, o gás rico em CO₂ poderá ser reinjetado diretamente no reservatório, enquanto apenas o petróleo seguirá para a plataforma. Segundo a Petrobras, além de reduzir emissões de carbono, a tecnologia também diminui a necessidade de equipamentos na superfície e pode reduzir custos. O primeiro equipamento do sistema ainda está em construção e passará pelos testes no CTPB antes de ser instalado em uma operação real. Instalações do Centro Tecnológico para o Pré-sal Brasileiro (CTPB), na Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI) Ascom UNIFEI Para a diretora da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Symone Araújo, no caso do HISEP uma das principais vantagens da tecnologia é permitir que parte do processamento do gás seja feita ainda no ambiente submarino. "Ao transferir parte desse processamento para o ambiente submarino, o HISEP tem potencial para aumentar a eficiência, reduzir o inventário de gás na plataforma, diminuir emissões, reduzir consumo energético por barril e contribuir para a viabilização de campos com alta razão gás-óleo com elevado teor de CO₂", disse Araújo. Reconhecida pela própria ANP, a etapa de redução de riscos tecnológicos do HISEP recebeu o Prêmio ANP de Inovação Tecnológica em 2023, homenagem concedida a projetos considerados estratégicos para o setor de petróleo e gás. 🛠️ O primeiro projeto será o HISEP, tecnologia inédita da Petrobras. 🌊 A proposta é fazer parte da separação do petróleo no fundo do mar, antes de chegar à plataforma. 🌱 O sistema pode reduzir emissões de CO₂ e o consumo de energia. Por que Itajubá? À primeira vista, pode parecer estranho que um centro voltado ao pré-sal tenha sido construído em uma cidade sem litoral. A explicação está menos na geografia e mais na história da engenharia desenvolvida na cidade. A parceria entre Petrobras e Unifei começou há mais de 30 anos e se intensificou com projetos de pesquisa voltados ao setor de óleo e gás. Ao longo desse período, professores e pesquisadores participaram do desenvolvimento de tecnologias que abriram caminho para a implantação do CTPB. "Esse centro significa a inserção de Itajubá, da Unifei e de Minas Gerais na rota do petróleo. Empresas que desenvolvem equipamentos para essa indústria passarão a ter a cidade como referência para testes e desenvolvimento", afirmou o coordenador do CTPB, Marco Aurélio de Souza. A prefeitura também aposta que o empreendimento pode fortalecer o ecossistema tecnológico já existente na cidade, pois além da geração de empregos qualificados, empresas fornecedoras e startups ligadas à cadeia de tecnologia e de equipamentos devem ser atraídas para a região. Segundo a gestão municipal, parte desse movimento já começou. Empresas ligadas ao setor de petróleo e gás já utilizam as instalações do CTPB para realizar testes em equipamentos destinados à exploração do pré-sal. Há ainda a expectativa de que novas empresas passem a se instalar no entorno do centro tecnológico à medida que a demanda por pesquisas e validação de tecnologias aumente. O município também espera impactos diretos na economia local. Como o trabalho desenvolvido pelo CTPB é caracterizado como prestação de serviços, a prefeitura prevê aumento na arrecadação do Imposto Sobre Serviços (ISS), à medida que o centro ampliar suas atividades e receber novos projetos. Itajubá - Igreja Matriz Nossa Senhora da Soledade - Foto Aérea 2023 Prefeitura de Itajubá 🎓 A parceria entre Petrobras e Unifei existe há mais de 30 anos. 🏭 Empresas do setor de petróleo já utilizam o centro para validar equipamentos. 💼 A expectativa é atrair novas empresas de tecnologia e engenharia para a cidade. 🗺️ O município quer consolidar Itajubá como referência nacional em pesquisa aplicada ao setor de energia. Atualmente, cerca de 50 pessoas atuam diretamente no laboratório. A estimativa do município é que o empreendimento gere aproximadamente 300 empregos indiretos em áreas como construção, manutenção, logística, hospedagem, alimentação e prestação de serviços especializados. A operação do centro também exige cuidados especiais para o transporte de equipamentos de grande porte. Segundo a prefeitura, parte das cargas destinadas ao CTPB são classificadas como carga especial e, por isso, depende de planejamento logístico e, em alguns casos, de apoio do Departamento Municipal de Trânsito e da Guarda Municipal para circular pelas vias urbanas. A prefeitura também afirma que o crescimento do centro tecnológico já produz reflexos na infraestrutura urbana. Um deles é a expansão do Parque Científico e Tecnológico de Itajubá (PCTI), onde o CTPB está instalado. Segundo o município, o aumento da circulação de empresas e profissionais também deve exigir melhorias contínuas no sistema viário da região. Durante a fase de construção, houve aumento temporário da procura por imóveis para locação. Já com o início da operação, a expectativa é de crescimento do turismo de negócios, impulsionado pela chegada de pesquisadores, fornecedores e representantes de empresas que utilizarão a estrutura para testes e desenvolvimento tecnológico. Formação de pesquisadores Os impactos do CTPB não devem ficar restritos à indústria do petróleo. Hoje, a estrutura reúne cerca de 32 engenheiros, aproximadamente 20 profissionais terceirizados e outros 20 estudantes envolvidos em projetos de pesquisa. Na avaliação da ANP, um dos principais legados do centro será justamente a formação de profissionais especializados. A agência destaca que a infraestrutura reúne pesquisadores, estudantes e empresas em um mesmo ambiente, o que fortalece a qualificação de mão de obra para o setor de energia. "O CTPB simboliza uma convergência muito importante do ecossistema de ciência, tecnologia e de inovação: investimento regulado, desafio tecnológico real, excelência acadêmica, participação empresarial, fornecedores tecnológicos e formação de recursos humanos", disse Symone Araújo, da ANP. Imagem aérea Unifei Itajubá Reprodução/EPTV O reitor da Unifei, Marcel Peroni, acredita que a demanda por profissionais será permanente. "Sempre haverá necessidade de recursos humanos, seja na operação dos ensaios, seja na pesquisa e no desenvolvimento. São oportunidades que regularmente vão aparecer", diz. 👨‍🔬 A estrutura reúne engenheiros, pesquisadores, terceirizados e estudantes. 🎓 Novos alunos de graduação e pós-graduação devem integrar os projetos. 🤝 Universidade, empresas e governo compartilham o mesmo ambiente de pesquisa. ⚡ O centro deve formar profissionais para diversas áreas do setor de energia. Desafio de reproduzir o fundo do mar em 'terra' A estrutura também chama atenção pela complexidade. Os testes são realizados com petróleo e gases inflamáveis em pressões que chegam a aproximadamente 300 bar — centenas de vezes superiores às encontradas em equipamentos domésticos, como uma panela de pressão. Segundo Marcelo Castro, da Unicamp, reproduzir essas condições exige equipamentos altamente especializados, sistemas avançados de automação e rigorosos protocolos de segurança, o que explica o investimento necessário para a construção de uma infraestrutura desse porte. Para alcançar essas condições, a planta opera com equipamentos de grande porte projetados para suportar pressões centenas de vezes superiores às encontradas em aplicações industriais comuns. Cada ensaio é acompanhado por equipes especializadas e protocolos específicos de segurança. Ao operar nessas condições, o centro adota protocolos semelhantes aos utilizados em plataformas de petróleo, com detectores de gás, sistemas de combate a incêndio, válvulas de segurança e estudos para simular diferentes cenários de risco. Instalações do Centro Tecnológico para o Pré-sal Brasileiro (CTPB), na Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI) Ascom UNIFEI Segundo os responsáveis pelo centro, o laboratório possui as licenças ambientais necessárias para funcionamento e foi projetado para minimizar possíveis impactos na área onde está instalado. Além disso, o entorno recebeu ações de recuperação ambiental, como o plantio de espécies nativas nas encostas próximas ao centro. O pesquisador da Unicamp ressalta, porém, que o sucesso de uma estrutura como essa depende de investimentos permanentes. Segundo ele, manter uma planta experimental desse porte exige recursos contínuos para operação, atualização tecnológica e desenvolvimento de novos projetos. Sem esse financiamento, há risco de deterioração da infraestrutura em poucos anos. Para Marcelo Castro, outro desafio será garantir que o conhecimento produzido no centro também contribua para tecnologias ligadas à transição energética, como captura e armazenamento de carbono, eficiência energética e integração com outras fontes de energia. "Os benefícios dessas pesquisas vão além da indústria de petróleo e gás. Tecnologias desenvolvidas para ambientes extremos frequentemente encontram aplicações em outros setores, como energia, química, mineração, manufatura avançada e até mesmo na área biomédica, especialmente em sensores, novos materiais, robótica, sistemas de controle e análise de dados", disse. o Para o segundo semestre de 2026, estão previstos os testes finais de qualificação das bombas no CTPB. Já para os próximos anos, a expectativa é que a planta também seja utilizada para desenvolver novas tecnologias ligadas ao setor de óleo e gás. Veja mais notícias da região no g1 Sul de Minas

Fale Conosco